Quando a gente pensa em Marrocos, normalmente vêm à cabeça lugares como Marraquexe, Fez, as montanhas do Atlas ou até o Deserto do Saara. Casablanca, por sua vez, quase nunca aparece como prioridade nos roteiros turísticos.
Casablanca é a maior cidade do país e o principal centro econômico e industrial do Marrocos. Talvez, justamente por esse lado mais moderno, ela acabe ficando em segundo plano quando o assunto é turismo.
De fato, a esmagadora maioria dos viajantes usa Casablanca apenas como uma “porta de entrada” para o Marrocos, sem aproveitar o que a cidade tem de melhor a oferecer.
Pouca gente sabe que uma das atrações turísticas mais interessantes do Marrocos encontra-se justamente ali, no principal boulevard de Casablanca, às margens (e sobre) do oceano atlântico: a Mesquita Hassan II.
Belíssima, imponente e moderna esta é, sem dúvida, o principal cartão postal de cidade. Definitivamente, você tem que conhecer!
Trata-se da maior mesquita do Marrocos e uma das maiores do mundo. Só para você ter uma ideia, seu enorme salão de orações comporta 25 mil fiéis, e o pátio externo 80 mil pessoas, totalizando 105 mil pessoas. E o complexo religioso e cultural no qual a mesquita se insere abrange uma área de 9 hectares, englobando também um museu de arte islâmica, uma escola corânica e uma gigantesca esplanada.
A título de comparação, a Mesquita Azul de Istambul tem capacidade para apenas 10 mil pessoas. Ou seja, a Mesquita Hassan II tem 2,5 vezes a capacidade da mesquita mais famosa da Turquia, apenas no seu hall de orações.
Além disso, ela foi construída sobre o mar, o que exigiu a adoção de diversas soluções de engenharia, como a construção de diques protetores contra ondas de até 10 metros.
Enfim, visitar a Mesquita Hassan II é uma experiência fascinante; é uma oportunidade de conhecer outra cultura e apreciar uma verdadeira maravilha da arte e da engenharia.
Neste artigo você conhece mais sobre a história da Mesquita Hassan II, suas principais características e descobre as principais as dicas de visitação para aproveitar melhor a sua experiência. Confira!
1. Características Singulares
Se você já visitou mesquitas mundo a fora, não pense que a Mesquita Hassan II vai ser apenas mais uma como as outras. Além da sua grandiosidade e da localização geográfica sobre o mar, ela se destaca por suas características singulares. Muito provavelmente você não vai encontrar outra igual no mundo.
Logo na chegada ao complexo, chama a atenção o Minarete da Mesquita. Com cerca de 210 metros de altura, ele equivale a um arranha-céu de aproximadamente 60 andares, sendo considerado o segundo minarete mais alto do mundo. Projetado no formato quadrangular clássico, que caracteriza a arquitetura religiosa do Marrocos, o monumento serve como ponto de orientação em toda a linha costeira de Casablanca.
Durante as noites, no topo do minarete, um laser de 30 km projeta-se em direção à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita, elemento que carrega um forte simbolismo para os muçulmanos.

Entrando na mesquita, encontramos o hall de orações, de dimensões gigantescas. São 200 metros de comprimento por 100 metros de largura e 60 metros de altura.
E falando em altura, a estrutura é coberta por um teto retrátil de madeira de cedro que pesa cerca de 1.100 toneladas. Acionado por potentes motores elétricos, esse teto desliza completamente em apenas cinco minutos, banhando o salão com luz natural e criando um sistema de ventilação ecológico que substitui o ar-condicionado convencional.
A decoração da mesquita é um capítulo à parte e, também, reflete a grandiosidade do local. Milhares de artesãos marroquinos trabalharam na construção da mesquita, fazendo o uso de materiais provenientes de todo o país, tal como madeira de cedro das montanhas do Atlas, mármore de Agadir e granito de Tafraoute.
O espaço ostenta mais de 10 mil m² de mosaicos cerâmicos conhecidos como zelliges, aplicados manualmente em 80 variações de padrões geométricos.
O hall de orações é iluminado por 57 lustres de cristal provenientes de Murano, na Itália, e o mais pesado deles tem impressionantes 1200 kg.
Enfim, são tantos detalhes que é até difícil descrever. Você simplesmente tem que ir lá!
Por fim, não podia deixar de falar sobre toda a engenharia e a tecnologia envolvida na construção. De fato, a construção da Mesquita Hassan II é considerada uma das maiores realizações da engenharia moderna no mundo islâmico.
Como disse anteriormente, a mesquita foi erguida parcialmente sobre o Oceano Atlântico, o que exigiu soluções inovadoras para enfrentar a força das ondas, a corrosão causada pela água salgada e o enorme peso do edifício. Para isso, foram utilizados milhares de metros cúbicos de concreto de alta resistência, fundações reforçadas e técnicas especiais de impermeabilização e proteção contra o ambiente marinho.
Em suma, a combinação entre engenharia de alta complexidade, técnicas construtivas modernas e o refinado artesanato tradicional transformou a Mesquita Hassan II em um dos maiores símbolos da arquitetura contemporânea do Marrocos e em uma referência mundial na integração entre tecnologia e patrimônio cultural.
2. Um pouco de história

A Mesquita Hassan II não é uma construção centenária, mas sua história é fascinante. A ideia partiu do próprio Rei Hassan II (pai do atual Rei Mohammed VI), que queria dar a Casablanca um monumento que simbolizasse a união do povo marroquino e sua fé, projetando a cidade como um ícone cultural e espiritual.
“Desejo que Casablanca seja dotada de um grande e belo edifício do qual possa se orgulhar até o fim dos tempos… Quero construir esta mesquita na água, porque o trono de Deus está sobre a água. Portanto, os fiéis que vão lá para orar, para louvar o Criador em solo firme, podem contemplar o céu e o oceano de Deus.” (Rei Hassan II)

As obras começaram em 1986 e a correria foi grande: o prazo era ter tudo pronto para o aniversário de 60 anos do rei, em 1989. Mas, infelizmente, uma construção desse tamanho e complexidade não se faz em três anos.
O trabalho hercúleo durou, na verdade, até 1993, empregando um exército de cerca de 1400 trabalhadores e 10 mil artesãos de todas as partes do reino. Eles trabalhavam dia e noite, em turnos, para transformar o sonho do rei em realidade.
O projeto foi de autoria do arquiteto francês Michel Pinseau, radicado no Marrocos. A construção ficou por conta do grupo Bouygues, que também foi o responsável pela execução de incríveis projetos mundo afora.
A construção foi bancada por doações populares, numa campanha nacional que envolveu desde os cidadãos mais humildes até a elite do país. De fato, a campanha recebeu contribuições de cerca de 12 milhões de doadores. Cada um recebeu um certificado de doador. Isso criou um senso de propriedade coletiva muito forte até hoje.
O custo total? Estimativas giram em torno de 580 milhões de Euros.
Superar as dificuldades técnicas foi épico, sob vários aspectos: fundações, estruturas, pilares, impermeabilização e logística. Isso tudo sem falar no cronograma apertado para a construção.
A maior dificuldade, como já dito, foi erguer um edifício monumental parcialmente sobre o Oceano Atlântico. Para isso, os engenheiros precisaram criar uma plataforma artificial resistente às ondas e à erosão marinha, utilizando cerca de 26 mil m³ de concreto nas fundações e 60 mil m³ de enrocamento para proteger a estrutura.
Outro grande desafio surgiu após a inauguração. A exposição permanente à água salgada e à maresia provocou a infiltração de cloretos no concreto, acelerando a corrosão das armaduras de aço em partes da estrutura voltadas para o mar.
Como consequência, poucos anos depois foi necessária uma ampla intervenção de engenharia para reforçar a proteção costeira e substituir elementos estruturais por concreto mais resistente e armaduras de aço inoxidável duplex, muito mais adequadas ao ambiente marinho.
3. Visitação

A boa notícia é que a Hassan II é uma das poucas mesquitas no Marrocos aberta a não-muçulmanos. Entretanto, a visita de não-muçulmanos só pode ser feita de forma guiada e em horários determinados.
As visitas são oferecidas em vários idiomas (inglês, francês, espanhol, árabe e, às vezes, italiano) e duram cerca de 45 minutos a 1 hora.
O guia conduz os visitantes pelo salão de orações, pelo salão do minarete e pela sala de abluções.
Na sala de orações, as mulheres costumam orar no mezzanino, separadas dos homens. Porém, não há separação durante a visitação.

Saindo do hall de orações, passamos pelo salão do minarete, uma área de transição que revela a engenharia de sustentação da torre da mesquita. Entretanto, não é permitido subir no minarete. O acesso é restrito aos funcionários e ao “muezim” (o funcionário responsável pela chamada à oração).
No subsolo, encontra-se a sala de abluções, que é lindíssima, abrigando 41 fontes de mármore esculpidas em formato de flor de lótus e utilizadas pelos fiéis para a purificação espiritual antes das orações.
4. Ingressos e horários
Geralmente, as visitas ocorrem de sábado a quinta-feira em horários como 9h, 10h, 11h e 12h (e mais um horário à tarde 15h). Às sextas-feiras, por ser o dia sagrado para os muçulmanos, os horários são reduzidos (9h e 10h, de manhã, e 15h à tarde). Chegue com uns 15-20 minutos de antecedência para comprar seu ingresso na bilheteria do local.
Convém lembrar que esses horários podem variar ao longo do ano, notadamente, durante o mês do Ramadã. Por isso, não deixe de consultar o site da mesquita, antes de visitar.
O ingresso custa 140 Dirhams marroquinos (MAD) para adultos, o que equivale a cerca de R$ 78 (BRL) ou 13 € (EUR). Entretanto, a visita vale cada centavo.
Várias agências virtuais vendem ingressos para a Mesquita Hassan II. Costumam prometer que o visitante vai furar a fila (“skip the line”).
Vale a pena comprar ingressos com agências?
Sinceramente, sempre comprei o ingresso diretamente na bilheteria da mesquita e nunca presenciei filas grandes. Sempre que possível, evito intermediários.
Então, creio que só valha a pena contratar com uma agência se você tiver pouco tempo na cidade e for fazer o City tour. Caso contrário, siga diretamente à mesquita, selecione a língua e horário de preferência, e compre o seu ingresso.
5. Regras de etiqueta
A Mesquita Hassan II é um local de oração ativo, então o respeito é fundamental. Porém, as regras de etiquetas são simples:
Roupas Discretas:
Ombros e joelhos devem estar cobertos. Homens devem evitar ir de shorts. Mulheres podem usar calça, saia longa ou vestido. Nada de decotes ou roupas coladas. A Mesquita Hassan II não exige o uso do hijab (véu islâmico) pelas visitantes mulheres (diferentemente do que ocorre nas mesquitas em geral).
Sapatos:
Você terá que tirar os sapatos para entrar no salão de orações e carregá-los na mão ou deixar na entrada.
Fotos e vídeos:
É possível tirar fotos sem flash. Evite poses “instagramáveis”, pois podem soar desrespeitosas.
Silêncio e Discrição:
Evite falar alto e, claro, demonstrações de afeto exageradas.
6. Dica de viajante experiente:
Confira, a seguir, as principais dicas para tornar a sua experiência turística ainda mais agradável.
Quando ir:
Prefira a primeira visita da manhã (9h). A luz está linda e geralmente há menos gente. Chegar cedo também te permite caminhar com calma pelo lado de fora, onde a visita é livre e gratuita, admirando a arquitetura e o vai-e-vem do mar.
Como chegar:
A mesquita fica no Boulevard de la Corniche. O ideal é pegar um Uber ou aplicativo de transporte local (por exemplo, o Careem) para chegar até lá. Se for pegar um taxi, não se esqueça de combinar o preço antes. Se você gosta de caminhar, da estação Casaport até a mesquita, leva-se cerca de 30 minutos à pé.
Combine o passeio:
Depois da visita, caminhe pelo calçadão da Corniche e coma algo em um dos restaurantes com vista para o mar. Nós, por exemplo, seguimos caminhando até o Marina Shopping para almoçar (fica a dica: o Mood’s Café & Restaurante, localizado no piso superior, é uma excelente opção).
Confira nosso vídeo no Youtube:
Então é isso! Da próxima vez que alguém disser que Casablanca é “só um ponto de entrada”, você já sabe: a cidade guarda uma das maiores joias arquitetônicas da África. A Mesquita Hassan II é aquele tipo de lugar que fica na memória e nas fotos para sempre.