Se você já viu fotos do Rio de Janeiro dos primeiros anos da República, deve ter se deparado com pessoas vestidas a rigor, caminhando por uma avenida ampla e rodeada por construções ao estilo parisiense. Este boulevard é a antiga Avenida Central, a atual Avenida Rio Branco. No Brasil, talvez seja esta a avenida mais importante na história do Século XX. Visitá-la faz parte dos encantos do centro histórico do Rio de Janeiro!

Sob a presidência de Rodrigues Alves (1902-1906), o Rio de Janeiro passou por uma reforma urbana voltada à modernização do centro sob padrões e estilos europeus, notadamente, os franceses. É a Reforma Pereira Passos, conduzida pelo Prefeito Pereira Passos, com apoio do Ministro Lauro Müller e do Engenheiro Paulo de Frontin.


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À época, o centro era superpovoado, cheio de cortiços, vielas e propenso à proliferação de doenças, tais como, varíola e febre amarela. A propósito, foi nessa época que aconteceu a Revolta da Vacina (1904), após a edição de uma lei que determinava a obrigatoriedade de vacinação contra a Varíola.

A construção da Avenida Central foi o marco dessa reforma e foi inspirada nos boulevards franceses, criando uma atmosfera cosmopolita.

Avenida Central, Rio de Janeiro
Avenida Central (créditos: Acervo do Instituto Moreira Salles/Domínio Público)

Com 1.800 metros de extensão e 33 metros de largura, a avenida liga a Praça Mauá, na zona portuária, e onde atualmente situa-se o Museu do Amanhã, à futura Avenida Beira-Mar, na região da Glória, onde hoje fica o Monumento aos Pracinhas, ao lado do aeroporto Santos Dumont. Ou seja, a avenida tem “água dos dois lados”: de um lado, a região portuária, e, do outro, a Marina da Glória. Numa das extremidades da via, está a Praça Floriano (Cinelândia).

Para a abertura da avenida, muitas casas coloniais foram demolidas e milhares de pessoas foram desalojadas. Era o chamado “Bota-Abaixo”. Esses desalojados se mudaram principalmente para os morros da região, dando impulso ao processo de favelização do Rio de Janeiro. A elite urbana, por sua vez, já havia se mudado do centro.


Segundo Beatriz Kushnir e Sandra Horta, “Cerca de 600 prédios foram demolidos em curto prazo, provocando o despejo de centenas de famílias. A construção de vilas operárias mostrou-se insuficiente para atender à demanda dos desabrigados. Por sua vez, as indenizações não corresponderam às expectativas dos moradores desalojados, e o Centro, então valorizado, já não podia ser o endereço da população de baixa renda. Preocupados em se manterem próximos aos seus lugares de trabalho, diminuindo as despesas com transporte, os ‘sem-teto’ daquele tempo ergueram moradias nas encostas dos morros próximos. Porém, nem todos estavam atentos aos problemas suscitados pelas obras.”. Ou seja, estava aqui o embrião das favelas cariocas!


Apesar disso, a Avenida Central tornou-se um espetáculo de beleza e um símbolo da modernidade no Brasil, com suas lojas chiques e o desfile de automóveis, meio de transporte que chegava ao país. Nas suas calçadas, havia mosaicos de pedras portuguesas e suas construções seguiam o estilo Art Nouveau, com fachadas aprovadas por uma comissão de arquitetos. O seu canteiro central foi arborizado. Foi também a primeira avenida no país a receber iluminação elétrica.

Sua inauguração deu-se em 15 de novembro de 1905, após 20 meses de obras, com a presença do Presidente Rodrigues Alves.

Com a morte do Barão do Rio Branco, em 1912, a Avenida Central passou a se chamar Avenida Rio Branco, nome que permanece até hoje.

A partir da década de 1940, entretanto, a avenida sofreu um imenso processo de descaracterização arquitetônica, perdendo muito do seu charme. Passou-se a privilegiar o estilo modernista em detrimento do Art Nouveau.

Vários prédios foram demolidos e/ou substituídos. É nessa época que se inicia a construção de espigões quadrados horrorosos. Um destes é o Edifício Marques de Herval, construído em 1952 onde estava situado o belíssimo Palace Hotel, na esquina da Avenida Rio Branco com a Almirante Barroso.

Edifício Marques de Herval, Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro
Edifício Marquês de Herval (créditos: Antuérpio Damaceno, CC BY-SA 4.0)

O Edifício Marquês de Herval também foi palco de eventos históricos pouco conhecidos dos brasileiros: a atuação de grupos de extrema-direita durante a ditadura militar. Em 1968, o clima político era tenso, notadamente diante das grandes manifestações contra o regime. Foi em junho desse ano que aconteceu a Passeata dos 100 mil na própria Avenida Rio Branco.

Nessa época, bandos da extrema-direita que apoiavam a ditadura, ou que estavam dentro dela, praticaram diversos atentados contra grupos de teatro, grêmios estudantis e jornais de oposição.

No piso térreo do edifício Marquês de Herval, funcionava uma agência de anúncios do Jornal Correio da Manhã. O jornal, que inicialmente havia apoiado a deposição do presidente João Goulart, com o passar do tempo, mudou de orientação, passando a fazer oposição à ditadura militar. No dia 7 de dezembro de 1968, o prédio foi atingido por uma forte explosão que destruiu completamente a agência e quebrou todas as janelas do edifício até o 10° andar. Mais de três toneladas de vidros caíram nas calçadas em frente ao prédio e até o edifício da Caixa Econômica Federal, do outro lado da avenida, sofreu danos. Por ser madrugada, apenas um homem que passava no local na hora da explosão ficou ferido por estilhaços de vidros (fonte: ABI).

No editorial de 8 de dezembro de 1968, o jornal acusou diretamente o Governo. Cinco dias após, foi editado o famigerado AI-5 (fonte: ABI). 


Na década de 1960, com a supremacia do automóvel, a avenida perdeu as suas linhas de bonde.

Infelizmente, hoje restam apenas 10 prédios da época da Avenida Central. A maior parte em torno da Praça Floriano (Cinelândia). Muitos sofreram tombamento pelos Governos Federal e Municipal.

Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Fundação Biblioteca Nacional

Atualmente, é nessa região onde se encontra o mais belo conjunto arquitetônico do Rio de Janeiro. São prédios imponentes como o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional  e o Museu Nacional de Belas Artes. O antigo prédio do Supremo Tribunal Federal também se encontra na Cinelândia. Nele, atualmente, funciona o Centro Cultural da Justiça Federal.

No lado oposto ao Theatro Municipal, encontra-se a Praça Gandhi, onde estava situado o belíssimo Palácio Monroe, construído em 1903.

Palácio Monroe, Avenida Central, Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro
Palácio Monroe (créditos: Instituto Moreira Salles/Domínio Público)

O prédio abrigou o Senado Federal entre 1924 e 1960. Infelizmente, foi demolido em 1976 supostamente para a construção de uma linha do Metrô. A praça atual, onde funciona um estacionamento subterrâneo, não tem uma beleza minimamente comparável à do antigo palácio.


“À época do Regime Militar, [o Palácio Monroe] foi transformado em sede do Estado-Maior das Forças Armadas. Em 1974, durante as obras de construção do Metrô do Rio de Janeiro, o traçado dos túneis foi desviado para não afetar as fundações do palácio. Nessa época, o Governo Estadual decretou o seu tombamento. Uma campanha mobilizada pelo jornal O Globo, com o apoio de arquitetos modernistas como Lúcio Costa pediu a demolição do Palácio Monroe, sob alegações estéticas e de que o prédio atrapalhava o trânsito. O então presidente Ernesto Geisel, que também não era favorável ao edifício, sob a alegação de que prejudicava a visão do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, não concedeu o decreto federal de tombamento e, em março de 1976, o monumento foi demolido.” (fonte: Wikipedia).


Uma frase publicada num manifesto contra a demolição dizia: “restará aos usuários do Metrô perceberem que, onde foi o Monroe, haverá uma misteriosa curva (…)”.

A partir de 2016, um suspiro de esperança para a região central do Rio de Janeiro. Como parte das obras para as Olimpíadas, um trecho de 600 metros da Av. Rio Branco foi fechado para o trânsito de veículos, nas proximidades da Cinelândia. Foram construídas ciclovias, bancos e a avenida, neste trecho, tornou-se muito mais amigável ao pedestre.

Avenida Rio Branco, Área Reformada, Rio de Janeiro
Avenida Rio Branco: calçadas, ciclovia e trilhos do VLT

Foi inaugurado, também, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), um incrível e confortável meio de transporte que percorre um bom trecho da Avenida Rio Branco. É uma espécie de ‘bonde moderno’, elétrico, que volta a trazer ao centro do Rio de Janeiro, um pouco do charme perdido nas décadas passadas (foto em destaque).

Por fim, não poderia esquecer de mencionar a importância da avenida para a maior festa popular do Brasil: o Carnaval. Desde os seus primórdios, a avenida foi ponto de concentração do carnaval carioca. Famílias abastadas com seus automóveis desfilavam pela avenida central jogando confetes e serpentinas e esguichando lança-perfumes. Em muitos carros, os ocupantes vestiam as mesmas fantasias. Talvez daí tenha surgido a noção de “carro alegórico” das escolas de samba.

Carnaval na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro
Carnaval na Avenida Rio Branco (Augusto Malta/Acervo do IMS/Domínio Público)

A Avenida Rio Branco, juntamente com a Avenida Presidente Vargas, também foi palco do desfile de escolas de samba do grupo especial, até a construção do Sambódromo na Avenida Marquês de Sapucaí na década de 1980.

Enfim, se você for ao Rio de Janeiro, não deixe de visitar a região central e as atrações ao redor da Avenida Rio Branco. A história do Brasil passa por lá!


Fontes:

 

Apaixonado por viagens e por fotografia. Começou a descobrir o mundo há 10 anos e já visitou 71 países. Gosta de caminhar a esmo pelas cidades mundo afora, observando as pessoas, as comidas, as construções e a arquitetura. É formado em Engenharia e Direito.

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